Zero açúcar não é sinônimo de zero adoçante
Cinco produtos entram no tipo diet/zero açúcar (dois da Dengo, um da Divine, dois da Torras), mas "açúcares totais" declarado no rótulo varia entre eles: três marcam 0 g (Dengo 65% Zero, Divine Amargo 80% Zero, Divine Branco Zero) e dois trazem um resíduo pequeno declarado no próprio rótulo, 0,5 g na Torras Negro e 1 g na Torras Orgânico. Todos os cinco declaram adoçante no rótulo, maltitol ou eritritol, e a quantidade de poliois (quando o fabricante publica) também está registrada no dataset.
Sódio e fibra: onde os rótulos mais divergem
Por 100 g, o sódio vai de 0 mg (dois produtos Garoto/Talento declaram "sódio: 0 mg" na porção) a 120 mg (Garoto Talento Recheado Torta de Limão). A fibra também varia bastante: chocolates amargos de maior percentual de cacau concentram mais fibra por 100 g, com o pico em 16 g (Divine Amargo 80% Zero), contra 0 g em tabletes ao leite e brancos que não declaram fibra na porção.
Os cinco produtos diet/zero açúcar deste comparativo declaram no rótulo dois adoçantes da família dos poliois (álcoois de açúcar): maltitol (Dengo 44% Zero, Dengo 65% Zero, Divine Amargo 80% Zero, Divine Branco Zero, Torras Negro 85% Zero) e eritritol (Torras Orgânico 79% Zero, combinado ao maltitol também na Dengo 44% Zero). São compostos que substituem o açúcar mantendo o dulçor, com efeitos no corpo diferentes dos da sacarose, documentados por agências regulatórias.
Efeito laxativo em quantidade alta. Poliois não são totalmente absorvidos no intestino delgado; o excesso fermenta no intestino grosso e pode causar desconforto gastrointestinal e efeito laxativo. É por isso que a legislação da União Europeia (Regulamento (UE) nº 1169/2011) exige a advertência "consumo excessivo pode ter efeitos laxativos" em rótulos com mais de 10 g de poliois como maltitol por 100 g (ou mais de 25 g no caso do eritritol). Fonte: European Association of Polyol Producers, polyols-eu.com/faq.
"Zero açúcar" não é "zero caloria". Poliois têm caloria, só que menos que o açúcar: a legislação da União Europeia usa 2,4 kcal por grama para a maioria dos poliois, maltitol incluído, contra 4 kcal por grama do açúcar comum (mesma fonte). O próprio dataset deste comparativo mostra isso: a Dengo Barra 65% Cacau, com açúcar, tem 529 kcal por 100 g, e a versão 65% Cacau Zero, sem açúcar, com maltitol, tem 468 kcal por 100 g. Menos caloria, longe de zero.
Xilitol, mesma família, cuidado à parte. Nenhum produto deste comparativo declara xilitol no rótulo (os zero açúcar daqui usam maltitol ou eritritol), mas vale o registro porque é um adoçante comum em outros doces "sem açúcar": xilitol é tóxico para cães. Segundo a FDA americana, em cães o composto provoca liberação rápida de insulina, causando queda severa de açúcar no sangue entre 10 e 60 minutos após a ingestão, com sintomas como fraqueza, falta de coordenação e convulsões. Fonte: FDA, "Paws Off Xylitol; It's Dangerous for Dogs" (fda.gov).
O que a lei brasileira exige para chamar de "zero açúcar". No Brasil, alegações como "não contém açúcares" e "zero açúcar" são reguladas pela Anvisa através da RDC nº 429/2020 e da Instrução Normativa nº 75/2020, sobre rotulagem nutricional de alimentos embalados (fonte: gov.br/anvisa, página de rotulagem nutricional). Por isso todo produto deste comparativo com essa alegação também declara no rótulo o adoçante que substitui o açúcar na fórmula.
Por que chocolate sem açúcar evita o pico de insulina?
Porque nos cinco produtos diet/zero açúcar deste comparativo a sacarose da fórmula foi substituída por polióis (maltitol, eritritol), e o único estudo revisado por pares localizado para essa combinação mediu resposta de glicose e de insulina no sangue menor com o adoçante do que com açúcar. O estudo testou seis misturas de dextrose, maltitol e frutooligossacarídeos de cadeia curta (scFOS, também usados para substituir açúcar) numa sobremesa láctea de chocolate, na dose de 35 g, com 32 adultos completando o teste e um subgrupo de 18 fornecendo amostra de sangue para medir a resposta pós-prandial.
No texto original do artigo: "Blood glycaemic and insulinaemic responses were lower for all the sugar-free recipes containing maltitol and scFOS in comparison to the control one (P<0.0001)" [as respostas glicêmica e insulinêmica no sangue foram menores para todas as receitas sem açúcar contendo maltitol e scFOS, em comparação com o controle, P<0,0001]. Como o desenho do estudo não isolou o maltitol do scFOS, o resultado vale para essa combinação, não para o maltitol sozinho. Fonte: Respondek et al., "Digestive tolerance and postprandial glycaemic and insulinaemic responses after consumption of dairy desserts containing maltitol and fructo-oligosaccharides in adults", European Journal of Clinical Nutrition, 2014, doi.org/10.1038/ejcn.2014.30.
Por que um adoçante e não outro faz diferença aqui?
Porque maltitol e eritritol, os dois adoçantes declarados nos rótulos dos itens diet/zero açúcar deste comparativo (maltitol em Dengo 44% Zero, Dengo 65% Zero, Divine Amargo 80% Zero, Divine Branco Zero e Torras Negro 85% Zero; eritritol em Torras Orgânico 79% Zero, combinado ao maltitol no rótulo de Dengo 44% Zero), não têm o mesmo caminho documentado no corpo. Para o eritritol, a reavaliação da EFSA de 2023 sobre esse aditivo descreve um caminho que não passa por virar açúcar no sangue: "Erythritol is readily and dose-dependently absorbed in humans and can be metabolised to erythronate to a small extent. Erythritol is then excreted unchanged in the urine" [o eritritol é absorvido de forma rápida e dose-dependente em humanos e pode ser metabolizado a eritronato só em pequena extensão; em seguida é excretado sem alteração pela urina]. Para o maltitol, a fonte usada neste comparativo (o estudo citado acima) não isola o mecanismo: o que ela mede é o resultado da combinação com scFOS, menor que o do açúcar, sem decompor o que acontece com o maltitol sozinho.
A mesma reavaliação da EFSA sobre o eritritol também pesa contra o adoçante, não só a favor. O painel fixou uma ingestão diária aceitável (ADI) de 0,5 g por kg de peso corporal por dia, tendo a diarreia como efeito de referência: "An ADI of 0.5 g/kg bw per day was considered by the Panel to be protective for the immediate laxative effect as well as potential chronic effects, secondary to diarrhoea" [o painel considerou uma ADI de 0,5 g/kg de peso corporal por dia protetora contra o efeito laxativo imediato e contra possíveis efeitos crônicos secundários à diarreia]. A mesma reavaliação concluiu que as estimativas de exposição aguda e crônica ao eritritol ficaram acima desse ADI: "the exposure estimates for both acute and chronic dietary exposure to erythritol (E 968) were above the ADI, indicating that individuals with high intake may be at risk of experiencing adverse effects" [as estimativas de exposição aguda e crônica ao eritritol ficaram acima da ADI, indicando que pessoas com ingestão alta podem estar em risco de sofrer efeitos adversos]. E concluiu também que os dados não sustentam tirar do rótulo o aviso de efeito laxativo: "the available data do not support the applicant's proposal for the exemption of erythritol from the current laxative warning" [os dados disponíveis não sustentam a proposta do requerente de isentar o eritritol do aviso laxativo atual]. Fonte: EFSA, "Re-evaluation of erythritol (E 968) as a food additive", EFSA Journal, 2023, doi.org/10.2903/j.efsa.2023.8430.
A resposta de cada pessoa a esses adoçantes varia, e a decisão sobre consumo, principalmente em caso de diabetes, é do médico, não deste comparativo.
Glúten e lactose: característica de linha, não de categoria
Entre os 27 produtos, quatro declaram "sem glúten" no rótulo, e os quatro são da linha Divine Chocolates (amargo, ao leite, meio amargo e branco). Os outros 18 declaram conter glúten e 5 não trazem essa informação na fonte consultada, então ficam "sem dado". Em lactose, dois produtos, os dois da linha zero/branco da Divine com essa informação publicada, declaram "sem lactose"; 18 declaram conter lactose e 7 ficam sem essa informação na fonte.
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