O que aconteceu no Tour de France de 2024
Durante a maior corrida de ciclismo do mundo, uma reportagem do site Escape Collective revelou que ao menos três equipes do pelotão usavam um aparelho de rebreathing de monóxido de carbono (CO). Entre elas estavam as duas maiores forças da prova: a UAE Team Emirates, de Tadej Pogacar, e a Visma Lease a Bike, de Jonas Vingegaard. A Israel Premier Tech também foi citada, e mais tarde a Ineos Grenadiers admitiu ter usado a mesma técnica.
A reação foi imediata. Como o monóxido de carbono é um gás tóxico, ligado a intoxicações domésticas fatais, a simples ideia de atletas de elite inalando o composto soou alarmante. Os ciclistas, porém, minimizaram tudo.
A versão das equipes: é só um exame
Pogacar chamou o procedimento de "teste bem simples". Segundo ele, o atleta sopra dentro de um balão por cerca de um minuto, mede a massa de hemoglobina e repete duas semanas depois. Vingegaard foi na mesma linha e disse não haver "nada de suspeito", comparando o efeito a "fumar um cigarro". Para os times, o objetivo é puramente diagnóstico: medir quanta hemoglobina o corpo produziu antes e depois de um estágio de treino em altitude, para saber se aquele bloco de treino funcionou.
Por que o método é cientificamente legítimo
Nesse ponto, os ciclistas têm razão. O rebreathing de CO em dose única é o padrão-ouro da ciência do esporte para medir a massa total de hemoglobina. A técnica foi refinada por Nicole Prommer e Walter Schmidt e publicada em 2005.
A lógica é elegante. O monóxido de carbono se liga à hemoglobina com afinidade muito maior que o oxigênio, formando carboxi-hemoglobina. Ao inalar uma quantidade conhecida e medir quanto CO foi absorvido, calcula-se indiretamente quantas moléculas de hemoglobina circulam no sangue. Como a hemoglobina é o veículo do oxigênio, medir a sua massa é medir a capacidade real de transporte de O2 do atleta. Uma medição dura poucos minutos e eleva a carboxi-hemoglobina de forma breve e transitória.
Uma medição diagnóstica leva a carboxi-hemoglobina a cerca de 10%, acima do limiar considerado seguro de aproximadamente 6,4%. Ainda assim, uma única exposição curta é considerada sem efeito sobre a performance.
Gatterer et al., 2024 (Frontiers in Physiology)Onde a ferramenta vira problema
A controvérsia não está no exame. Está no que acontece quando a mesma inalação é repetida muitas vezes. Ao expor o corpo de forma crônica a doses baixas de CO, cria-se uma hipóxia artificial: as células percebem menos oxigênio disponível e o organismo responde produzindo mais hemoglobina, exatamente como faria em uma montanha alta. A diferença é que isso acontece sem sair de casa.
Em um estudo controlado, participantes inalaram um bolus de CO cinco vezes por dia durante três semanas. O resultado foi um aumento de 4,8% na massa de hemoglobina, efeito comparável ao de um estágio de altitude, com tendência de ganho no VO2max de cerca de 4 mL/min por grama de hemoglobina adicional.
Schmidt et al., 2020 (Medicine & Science in Sports & Exercise)Nem toda dose funciona. Ryan et al. (2016) testaram um protocolo mais leve, com dez inalações ao longo de doze dias, e não encontraram efeito relevante na hemoglobina nem no VO2max. Já Wang et al. (2019), com cinco inalações por semana, relataram um aumento de 3,7% na massa de hemoglobina. O padrão é claro: o efeito de dopagem depende de dose e frequência altas e sustentadas. A linha entre diagnóstico e batota é, literalmente, quantas vezes você inala.
A decisão da UCI
A União Ciclística Internacional entrou no debate e, a partir de 10 de fevereiro de 2025, baniu a inalação repetida de monóxido de carbono. A justificativa foi de saúde, não apenas de fair play: fora de ambiente médico, a exposição repetida ao gás pode causar dor de cabeça, náusea, tontura e, em casos graves, arritmias, convulsões e perda de consciência. A entidade também admitiu que os efeitos de longo prazo dessa prática são desconhecidos.
A regra não proibiu o exame. Sob supervisão médica, uma medição continua autorizada, com uma segunda inalação permitida apenas após um intervalo obrigatório de duas semanas. Na prática, a UCI transformou uma ferramenta de diagnóstico legítima em algo controlado pela dose exata, separando o uso responsável do abuso.
Monóxido de carbono é um gás tóxico. Este texto é informativo e não recomenda qualquer inalação de CO fora de ambiente médico supervisionado. Não substitui avaliação profissional.
O veredito da melhor evidência
A ciência é desconfortavelmente simétrica aqui. A dose única é um exame de laboratório consagrado e útil, que ajuda o atleta a entender se o treino em altitude valeu a pena. A mesma substância, inalada várias vezes ao dia por semanas, deixa de medir a adaptação e passa a fabricá-la, com risco real à saúde e sem benefício comprovado que justifique o perigo. O que separa a medicina do doping, neste caso, não é a molécula. É a frequência.