O número que voltou a assombrar o ciclismo
Existe uma fronteira invisível na história das grandes subidas do Tour de France. Por anos, ela funcionou como uma linha divisória entre o possível e o suspeito: cerca de 6,10 W/kg de potência estimada, sustentados por 30 a 40 minutos de escalada. Antes de 2013, praticamente toda ascensão que ultrapassava esse patamar pertencia a um ciclista depois confirmado como dopado, na era do EPO e da manipulação sanguínea. Depois veio uma década de silêncio, em que ninguém chegou perto. Agora, entre 2024 e 2025, quatro escaladas de Tadej Pogacar e duas de Jonas Vingegaard voltaram a cruzar essa linha.
O gap entre a era do doping comprovado e a era presumidamente limpa, que já foi de cerca de 14%, encolheu para algo perto de 6%. É esse encolhimento que reacende, todo mês de julho, a mesma pergunta: esses números são humanamente possíveis sem doping?
De onde vem esse limiar
A régua dos watts nasceu com o técnico francês Antoine Vayer e o engenheiro Frederic Portoleau. Eles popularizaram a ideia de estimar a potência de uma subida a partir do tempo, do desnível e do peso, normalizando tudo para um ciclista padrão de 78 kg. Sobre essa escala, Vayer cravou faixas provocativas: acima de 410 watts padrão a performance seria "suspeita", acima de 430 watts "milagrosa" e acima de 450 watts "mutante". A lógica é tratar a potência como um indicador indireto de doping, sem depender do exame de sangue.
O ponto fraco dessa abordagem é justamente o que ela promete. Os modelos usados por Vayer e Portoleau exigem dados que quase nunca são medidos de verdade: área frontal do corpo, densidade do ar, resistência ao rolamento, eficiência mecânica e peso exato no dia. Nenhum desses valores vem de um powermeter público. Eles são inferidos. Por isso, cada número que circula no debate carrega uma margem de erro que raramente aparece nas manchetes.
O que a fisiologia limpa já entrega
Antes de gritar "impossível", vale lembrar onde está a fronteira biológica real. Ciclistas de elite genuínos têm VO2max muito acima da média: o teto do pelotão masculino costuma ficar entre 70 e 85 ml/kg/min. Pogacar teria registrado 89,4 em laboratório, e há relatos de valores ainda maiores em outros atletas. Vingegaard teria marcado cerca de 97 ml/kg/min ainda júnior, e Greg LeMond é historicamente citado em torno de 92,5 no auge, embora esse número seja contestado. Sustentar 5 a 6 W/kg de forma limpa não é ficção científica para quem tem esse motor.
Além do motor, uma década de ganhos legais se acumulou. A chamada revolução do carboidrato levou os atletas de World Tour de cerca de 60 gramas por hora para 100 a 120 gramas por hora de ingestão durante as etapas, algo que a literatura associa a melhora de desempenho em provas longas. Some a isso bicicletas mais aerodinâmicas, túneis de vento, powermeters em tempo real, previsão de tempo e periodização mais fina. Estimativas do próprio meio falam em torno de 10% de ganho só nas máquinas desde os anos de EPO.
Os dois lados da linha
De um lado, os céticos. Para eles, o encolhimento do gap de 14% para 6% é grande demais para ser explicado só por comida e aerodinâmica. Se toda performance acima de 6,10 W/kg antes de 2013 tinha dono dopado, argumentam, voltar a esse território pede o mesmo ceticismo, ainda mais com práticas cinzas como monóxido de carbono e bicarbonato de sódio em pauta.
Do outro lado, quem defende a era atual. Travis Tygart, chefe da agência antidoping dos Estados Unidos, resume a tese: o viés hoje favorece o atleta limpo, é possível vencer sem trapacear. Numa subida dos Pireneus, Lance Armstrong dopado no auge fez cerca de 6 W/kg em 2004 e levou quase seis minutos a mais que Pogacar na mesma montanha. A diferença, dizem, é a soma dos ganhos legais mais controles muito mais rígidos: passaporte biológico, sistema de localização e perfis longitudinais que não existiam nos anos 1990.
O que a melhor evidência realmente diz
A resposta honesta é desconfortável para os dois lados. A fisiologia, sozinha, não prova culpa nem inocência. Os números de Pogacar e Vingegaard são plausíveis no limite biológico humano, e é exatamente por isso que continuam suspeitos: eles vivem na zona onde o talento raro e o ganho ilegal produzem resultados parecidos no papel.
Três cuidados ajudam a ler o debate sem cair no torcedor de ocasião. Primeiro, quase todo W/kg citado é estimativa, não medida, e vem com erro que muda o veredito. Segundo, comparar eras sem descontar aerodinâmica, nutrição e material infla artificialmente a suspeita. Terceiro, ausência de prova de doping não é prova de limpeza, e um número no limite humano não é, por si só, uma confissão. O que a ciência entrega, no fim, é uma faixa de incerteza, não uma sentença.