O que significa "distribuir a intensidade"
Todo corredor divide o seu volume semanal entre esforços fáceis, moderados e fortes. A forma como esse bolo é fatiado tem nome técnico: distribuição de intensidade do treino. Para descrever isso, a ciência costuma usar um modelo de três zonas ancorado nos limiares de lactato. A Zona 1 fica abaixo do primeiro limiar (LT1), onde você conversa sem esforço. A Zona 2 é a faixa entre os dois limiares, o famoso "meio-termo" moderado. A Zona 3 fica acima do segundo limiar (LT2), o território do desconforto real.
A partir dessas três zonas surgem três estratégias distintas. A escolha entre elas não é detalhe: ela decide quanta adaptação você extrai do mesmo número de quilômetros.
Modelo polarizado (o 80/20 de Seiler)
O fisiologista Stephen Seiler popularizou a ideia de que atletas de resistência melhoram mais quando concentram cerca de 80% do volume em Zona 1 (fácil) e reservam os 20% restantes para Zona 3 (forte), passando pouquíssimo tempo na Zona 2. O nome "polarizado" vem daí: os esforços ficam nos dois polos, e o meio fica quase vazio. A lógica é que o treino fácil constrói base aeróbia com baixo custo de fadiga, e o treino muito forte entrega o estímulo de alta qualidade, sem o desgaste "morno" da zona intermediária, que cansa sem estimular tanto.
Modelo por limiar (threshold)
Aqui o corredor passa boa parte do treino qualificado bem na Zona 2, perto do ritmo de limiar. É a base de muitos planos clássicos de meia-maratona e maratona, com o tradicional "tempo run". A evidência aponta que, isoladamente, esse foco no meio-termo tende a render menos que o polarizado em atletas já treinados: no mesmo estudo de Stöggl e Sperlich, o grupo por limiar (46/54/0) não trouxe melhora relevante na maioria das variáveis-chave.
Isso não sepulta o limiar. A versão mais refinada dele é o "duplo limiar" norueguês, refinado pelo médico e atleta Marius Bakken e levado ao topo por Jakob Ingebrigtsen: duas sessões de limiar no mesmo dia, controladas por medições de lactato para não passar do ponto. Repare no detalhe: funciona porque o esforço é medido com precisão de laboratório, algo distante do amador que só tem relógio e sensação.
Modelo piramidal (o mais comum na prática)
O piramidal é uma pirâmide de volume: muita Zona 1 na base, uma fatia menor de Zona 2 no meio, e uma ponta fina de Zona 3 no topo. É, na prática, o que a maioria dos atletas de elite realmente faz quando observada ao longo da temporada.
Existe aqui um contraste honesto que a ciência ainda debate: estudos de intervenção (que testam modelos por algumas semanas) tendem a favorecer o polarizado, enquanto estudos observacionais (que fotografam o que a elite faz de fato) mostram o piramidal dominando. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, porque a foto de uma temporada inteira mistura fases diferentes.
Para quem serve cada um
Não há um vencedor único, e desconfie de quem promete isso. O que os estudos sugerem:
- Piramidal: excelente ponto de partida para quem está construindo base ou treina muitos quilômetros. Perdoa erros de ritmo e distribui bem a carga.
- Polarizado: costuma render mais para o atleta já adaptado que quer um salto de VO2máx, desde que ele consiga mesmo segurar os dias fáceis bem fáceis.
- Por limiar: potente na versão de duplo limiar controlado por lactato, mas exigente demais em precisão para a maioria dos amadores tocar sozinho.
Como o amador aplica sem errar
O erro clássico do corredor de fim de semana não é escolher o modelo errado, é rodar quase tudo na Zona 2 sem querer: os dias fáceis viram médios e os fortes viram médios também. O resultado é um treino "cinza" que cansa sem a base do fácil nem o estímulo do forte.
A evidência aponta um princípio comum aos três modelos: a esmagadora maioria do volume deve ser genuinamente leve. Estudos com corredores quenianos de 5 e 10 km mostraram cerca de 85% da distância semanal abaixo do limiar de lactato. Comece garantindo que os dias fáceis sejam leves de verdade (aquele ritmo de conversa), reserve um ou dois dias de qualidade por semana e não invente duplo limiar em casa. Antes de mudar de modelo, converse com um profissional que possa testar os seus limiares, porque o mapa das suas zonas é pessoal.